quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Mônica Veloso em "O poder que seduz": Trechos do Livro


"Menina"
"Talvez a consciência de viver um momento crucial de minha carreira, talvez a angústia de sentir-me obrigada a adaptar-me a um lugar tão estranho e impessoal; ou, mais provavelmente, a conjunção desses fatores, foi demais para mim naquela tarde silenciosa e vermelha de domingo. A fortaleza da mulher criada para enfrentar o mundo dos homens, que aos 13 anos abandonou a rotina de festinhas e namoricos para começar a trabalhar, ruiu por um momento. Voltei a ser apenas uma menina, com o rosto no vento, a cabeça entre o passado e o futuro. E chorei. Em silêncio e só."

Lobby
"Conheci um lobista de Minas, representante de uma empreiteira, que contava aos quatro ventos quais eram os parlamentares que estavam na sua folha de pagamentos. No segundo uísque, o rapaz já estava soltando os nomes, sem se preocupar com as pessoas da mesa ao lado. Dizia também que, além dos pagamentos em 'cash', costumava dar presentes aos políticos mais acanhados, que tinham dificuldade em assumir a realidade."

Renan
"As festas, os jantares de final de ano (2002) – como aquele que reunia jornalistas, publicitários e políticos na casa de um eminente senador (Ney Suassuna) – sempre me trouxeram a relaxante sensação de dever cumprido. Acho que pensava nisso quando percebi que ficamos sozinhos. Era como se fôssemos as únicas pessoas no mundo. Naquele momento, o senador Renan Calheiros olhou nos meus olhos e passou a dizer coisas que eu gostei de ouvir."

Rotina
"Íamos a exposições, lançamentos de livros, restaurantes, jantares na casa de amigos, e aos almoços da bancada do PMDB às quartas-feiras. Depois passou a me levar também ao Senado, onde eu era tratada com a maior deferência. No lançamento do livro do senador Ney Suassuna, seu amigo e colega de partido, em um restaurante da cidade, Renan estava tão à vontade, que não só ficou o tempo todo de mãos dadas comigo, para quem quisesse ver ou fotografar, como gravou um depoimento dizendo como admirava meu trabalho e gostava de mim. Essa fita foi feita para uma emissora local."

"Nele eu só fui buscar a sensação de me sentir cuidada. Nada quis e nem esperei dele, além do amor. Nos outros aspectos, minha vida estava organizada, eu só precisava cuidar de minha filha e tocar a produtora, que já funcionava direitinho, com bons clientes e ótimas perspectivas. Já tinha realizado o sonho da casa própria. Um belo sonho, por sinal: um apartamento de quatro quartos, novo, em uma ótima quadra de Brasília. Nossa história tinha outra linguagem onde a palavra "interesse" não tinha lugar."

Gravidez
"Quando contei sobre a gravidez, ele entrou em pânico. Dizia ser impossível. Afinal, argumentou, não éramos mais crianças. Fiquei muito triste com a sua reação. Pela primeira vez percebi que o amor era lindo, mas a política, para ele, era tudo. O poder valia mais do que o amor, mais do que uma vida nova. A conversa foi tensa. Ele só pensava nas conseqüências pessoais e nos prejuízos à sua imagem." "Decidimos, então, que eu me mudaria para uma casa alugada no Lago Norte, e lá vivi como reclusa, preocupada em esconder minha gravidez."

Pensão
"Logo que fiquei grávida, em novembro de 2003, Renan concordou em pagar pensão mensal de R$ 8 mil, a partir de março de 2004, para garantir uma gravidez saudável e um parto tranqüilo, que eram direitos de sua filha, e também para compensar o fato de eu ter de abandonar o trabalho na produtora para esconder a barriga."

"Em dezembro de 2005, com o fim do nosso relacionamento, o Renan passou a pagar a pensão, via doc, a partir do Senado, mas reduziu o valor de R$ 8 mil para R$ 3 mil. Acho que qualquer pessoa que tenha uma pensão reduzida em 67% brigará pelos seus direitos, até porque não eram meus, mas de sua filha."

Fim de caso
"Óculos escuros, todos de preto, como se estivéssemos indo para um velório. A relação que havia começado entre os devaneios de um homem e uma mulher, em uma noite embalada por sorrisos, brindes, perfumes e aquele ar de fraternidade que impregna as festas de fim de ano, terminava como um testamento, em meio a leis, cifras, sobrancelhas crispadas e olhos vermelhos."

"Quando contei sobre a gravidez, ele entrou em pânico. Dizia ser impossível. Afinal, argumentou, não éramos mais crianças. Fiquei muito triste com a sua reação. Pela primeira vez percebi que o amor era lindo, mas a política, para ele, era tudo".

Do livro "O Poder que seduz" (Ed. Novo Conceito), da jornalista Mônica Veloso, que pode decepcionar quem espera mais detalhes da "história que abalou a capital do país", como dizia o material de divulgação. (Conforme o Jornal "A Gazeta")

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